§ 01 · Imersão no Tema CAD8022 · INOVAÇÃO SOCIAL

Gestão de resíduos recicláveis em Florianópolis.

Antes de propor solução, queremos entender o tema. Como o lixo se move pela cidade, quem trabalha com ele, o que diz a lei, o que mostram os números. Essa é a primeira etapa do trabalho.

Role para começar
Marco · março de 2026
Florianópolis está na lista das 20 cidades Lixo Zero do mundo. É a única cidade sul-americana nesse grupo.
· Selo Lixo Zero · Folha de Florianópolis · 03/2026 ·
A Aspectos gerais

O que estamos falando, em termos amplos.

Antes de olhar para os números, vale entender o vocabulário. O que estamos chamando de “gestão de resíduos recicláveis”, de onde isso vem e por que virou um tema central agora.

Resíduos sólidos recicláveis são materiais descartados que ainda podem voltar para o ciclo produtivo. Papel, plástico, vidro, metal, eletrônicos.
· definição operacional · Lei 12.305/2010 ·

Conceitos-chave para a discussão

C 01

Coleta seletiva

A coleta passa em dias diferentes para tipos diferentes de lixo (recicláveis secos, orgânicos, rejeitos). A pessoa separa em casa, a prefeitura recolhe e cada parte segue seu caminho. Em Florianópolis, isso existe desde 1994.

C 02

Logística reversa

Quando o produto chega ao fim da vida útil, ele volta para o fabricante. A lei obriga isso para pilha, pneu, lâmpada, óleo lubrificante, eletrônicos e embalagens de agrotóxico.

C 03

Economia circular

Em vez de extrair, produzir e descartar, a ideia é manter materiais em uso pelo maior tempo possível. É a base conceitual da PNRS e do programa Florianópolis Capital Lixo Zero.

C 04

Catador de materiais

Profissão registrada no CBO (5192-05). No Brasil, são as catadoras e catadores informais que fazem dois terços de toda a reciclagem feita no país. ABREMA · Panorama 2025

Hierarquia de gestão · PNRS

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) coloca reciclagem em quarto lugar. Antes dela vêm não gerar, reduzir e reutilizar. A ordem importa.

01 Não geração
02 Redução
03 Reutilização
04 Reciclagem
05 Tratamento
06 Disposição final

Breve histórico · Brasil e Florianópolis

Florianópolis começou a coleta seletiva pública em 1994, antes da maioria das capitais brasileiras. Trinta anos depois, o problema continua aí.

Anos 80
Era dos lixões a céu aberto

Brasil sem política nacional de resíduos. Predominância de vazadouros sem controle ambiental. Reciclagem feita quase exclusivamente por catadores informais.

1986
Projeto Beija-Flor

Florianópolis implanta projeto piloto de coleta seletiva em três regiões com perfis socioeconômicos distintos. Base experimental para o programa municipal.

1994
Coleta seletiva pública municipal

A cidade torna-se uma das primeiras capitais do país a instituir a coleta seletiva pública porta a porta como serviço regular da prefeitura.

1999
Fundação da ACMR

Associação de Coletores de Materiais Recicláveis começa a operar em parceria com o poder público. Hoje é a maior entre as 14 associações da Grande Florianópolis.

2010
PNRS · Lei 12.305

Política Nacional de Resíduos Sólidos é sancionada. Institui hierarquia de gestão, logística reversa, planos municipais obrigatórios e responsabilidade compartilhada.

2016
PMCS · Plano Municipal de Coleta Seletiva

Florianópolis consolida o desenho operacional da coleta seletiva no município, integrando-a ao Plano Municipal de Gestão Integrada (PMGIRS).

2017
PMGIRS · Decreto 17.910

Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos é instituído para o período 2018-2021. Em revisão completa desde 2024 para alinhamento à PNRS.

2018
Florianópolis Capital Lixo Zero · Decreto 18.646

O programa estabelece a meta de desviar 90% dos orgânicos e 60% dos recicláveis secos do aterro até 2030. Também cria o GIRS, grupo interinstitucional que coordena tudo isso.

2024-25
Revisão do PMGIRS em andamento

Prefeitura conduz revisão completa do plano por meio de oficinas participativas. R$ 10 milhões anunciados para acelerar metas de Lixo Zero. Nove ecopontos em operação. REPLAN · PMF

Mar/2026
Reconhecida como uma das 20 cidades Lixo Zero do mundo

Florianópolis recebe o selo Lixo Zero. É a única cidade sul-americana no grupo. No continente americano, divide o reconhecimento com San Francisco. Hoje a capital tem a maior taxa de reciclagem entre capitais brasileiras. Folha de Florianópolis · 2026

Por que importa, agora, aqui 97% de Florianópolis é ilha. Todo o lixo da cidade precisa atravessar uma ponte e rodar 40 km até o aterro de Biguaçu, que ainda recebe lixo de outros 22 municípios da Grande Florianópolis. Cada tonelada que fica aqui dentro vira economia para a prefeitura, mais vida útil para o aterro e renda para quem trabalha com triagem.
B Dados relevantes

A dimensão real do tema.

Os números abaixo vêm de ABREMA, IBGE, COMCAP e prefeitura. Servem para situar o tamanho do problema antes de discutir qualquer coisa.

Brasil Panorama 2025 · ABREMA · ref. 2024
81,6Mt Resíduos sólidos urbanos gerados em 2024. O volume cresceu 0,75% em relação a 2023. ABREMA · Panorama 2025
1,24kg Geração média por habitante por dia. São 384 kg/hab por ano e o número segue subindo. ABREMA · Panorama 2025
8,7% Reciclagem mecânica de secos. Foram 7,1 milhões de toneladas em 2024. ABREMA · Panorama 2025
11,7% Reciclagem bioenergética: compostagem, biogás, biometano e CDR. Dado inédito do Panorama 2025. ABREMA · Panorama 2025
40,3% Destinação inadequada. Caiu em relação a 2023 (era 41,5%), mas ainda é muito. ABREMA · Panorama 2025
93,7% Cobertura de coleta no Brasil. Foram 76,4 milhões de toneladas coletadas em 2024. ABREMA · Panorama 2025
Florianópolis COMCAP · SMMA · PMF · ref. 2024-2026
576mil Habitantes em 2024. Crescimento de 7,2% desde o censo anterior. IBGE · 2024
700t/dia Resíduos sólidos recolhidos diariamente na cidade. SMMA · PMF · 2024
210mil Toneladas de resíduos sólidos movimentadas pela COMCAP por ano. COMCAP · PMF
32,9mil Toneladas entregues nos ecopontos em 2025. Em 2024 foram 28,8 mil. Cresceu 14,5% no ano. PMF · 2026
16,8mil Toneladas desviadas do aterro só via ecopontos em 2025. Em 2024 foram 15,8 mil. PMF · 2026
9ecopontos Em operação hoje. Ingleses, Rio Vermelho, Costeira, Itacorubi, Capoeiras, Monte Cristo, Morro das Pedras, Coloninha e Canasvieiras. PMF · 2026
6mil t Resíduos alimentares compostados em 2025. Mais 8 mil toneladas de resíduos verdes reaproveitadas. PMF · 2026
40km Distância até o aterro sanitário em Biguaçu, que recebe lixo de 23 municípios. PMF · CEPAL
14assoc. Associações de triadores recebem o material da coleta seletiva. Cerca de 240 famílias envolvidas. COMCAP
2,8mil kits Compostagem doméstica do projeto “Minhoca na Cabeça”. Cada residência desvia uns 32 kg de orgânico por mês. PMF · 2026
R$ 8,5Mi Economia acumulada em dois anos com o sistema de ecopontos (2024-2025). PMF · 2026
370pessoas Aproximadamente. É quanta gente vive hoje da renda da reciclagem em Florianópolis. SMMA · ACMR
Composição do lixo doméstico de Florianópolis
Quase 8 de cada 10 quilos do que vai para o caminhão poderia ter outro destino que não o aterro.
Recicláveis secosplástico, papel, vidro, metal
Orgânicosrestos de alimentos, podas, jardinagem
Rejeitoslixo sanitário e não recuperável
Metas até 2030 Florianópolis Capital Lixo Zero
90% Dos resíduos orgânicos devem ser desviados do aterro sanitário. Decreto 18.646/2018
60% Dos recicláveis secos devem ser desviados do aterro até 2030. Decreto 18.646/2018
A coleta seletiva de secos precisa multiplicar por cinco para atingir a meta. SMMA · 2024
15× E a de orgânicos compostáveis precisa multiplicar por quinze. SMMA · 2024
50mil t Volume anual previsto para a coleta seletiva quando a meta for atingida. SMMA · 2024
R$ 55Mi Estimativa de receita anual com reciclagem em 2030. Hoje são R$ 9,9 milhões. SMMA · 2024
Leitura do dado · 2026 O retrato é claro. Florianópolis avançou bastante. Em março de 2026 a cidade entrou para a lista das 20 cidades Lixo Zero do mundo e hoje tem a maior taxa de reciclagem entre as capitais brasileiras. O problema é que a maior parte do que ainda vai para o aterro era material reciclável ou orgânico. Falta separação na fonte, dentro das casas, dos condomínios, do comércio. Para chegar na meta de 2030 a coleta seletiva de secos precisa multiplicar por cinco e a de orgânicos por quinze. Isso não é problema de tecnologia. É de hábito e de articulação. Fontes: ABREMA · Panorama 2025 · SMMA · PMF · Decreto 18.646/2018 · Folha de Florianópolis 2026 · IBGE 2024
C Políticas, leis e atores

O que já existe. Marcos legais e quem atua.

Não estamos partindo do zero. Existem leis, planos e organizações que tratam do tema há anos. Abaixo, as principais peças desse arranjo.

Marcos legais

Esfera federal

  • F1
    PNRS · Lei 12.305/2010

    Política Nacional de Resíduos Sólidos. Institui hierarquia de gestão, logística reversa obrigatória, planos municipais e princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Planalto · texto da lei

  • F2
    Decreto 7.404/2010

    Regulamenta a PNRS. Detalha a aplicação prática da logística reversa e a estrutura dos planos municipais. IBAMA · PNRS

  • F3
    Novo Marco do Saneamento · Lei 14.026/2020

    Inclui resíduos sólidos no novo marco regulatório. Pressiona municípios a regularizar a cobrança pelo serviço público de manejo. Planalto · texto da lei

Esfera municipal

  • M1
    PMCS · 2016

    Plano Municipal de Coleta Seletiva. Define o desenho operacional do serviço de coleta seletiva em Florianópolis, integrado ao PMGIRS. PMF · PMGIRS

  • M2
    PMGIRS · Decreto 17.910/2017

    Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Vigência original 2018-2021, em revisão completa desde 2024 com oficinas participativas. REPLAN · revisão

  • M3
    Capital Lixo Zero · Decreto 18.646/2018

    Institui o programa Florianópolis Capital Lixo Zero, cria o GIRS (grupo interinstitucional) e fixa as metas para 2030. PMF · programa

  • M4
    Orientação Técnica SMMA Nº 2/2022

    Estabelece diretrizes para valorização de resíduos sólidos no município, com foco na economia circular. LegisWeb · texto

Atores envolvidos

Poder público

  • I1
    COMCAP

    Autarquia municipal responsável pela coleta, transporte e destinação dos resíduos sólidos urbanos. Movimenta cerca de 210 mil toneladas por ano.

  • I2
    SMMA · Secretaria Municipal do Meio Ambiente

    Conduz a política ambiental municipal, coordena o programa Florianópolis Capital Lixo Zero e a revisão do PMGIRS.

  • I3
    GIRS

    Grupo Interinstitucional de Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos. Articula prefeitura, sociedade civil, universidades e setor privado em torno da meta Lixo Zero.

  • I4
    IMA · SC

    Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina. É o órgão estadual de licenciamento e fiscalização ambiental.

Sociedade organizada

  • S1
    ACMR · Itacorubi

    Associação de Coletores de Materiais Recicláveis. Fundada em 1999, é a maior das 14 associações da Grande Florianópolis. Responde por mais da metade do volume triado na cidade.

  • S2
    14 associações de triadores

    Distribuídas pela Grande Florianópolis. Cerca de 240 famílias envolvidas. Recebem em doação todo o material da coleta seletiva pública.

  • S3
    MNCR · Movimento Nacional dos Catadores

    Articula nacionalmente catadores e catadoras de materiais recicláveis. Atuação histórica no reconhecimento da profissão e na defesa de políticas inclusivas.

  • S4
    UFSC · Núcleo de pesquisa em resíduos

    Universidade desenvolve o “Método UFSC” de compostagem, adotado pelo município, e estudos de caracterização gravimétrica.

  • S5
    ONGs ambientais e iniciativas

    Instituto Lixo Zero Brasil (com sede em Floripa), Boomera, Floripamanhã e outras articulam pautas de redução, compostagem doméstica e educação ambiental.

Programas e serviços já ofertados

  • P1
    Coleta seletiva porta a porta

    Atende toda a área urbana do município com frequência semanal, em geral. Roteiros publicados pela COMCAP por bairro.

  • P2
    Rede de Ecopontos

    Pontos de entrega voluntária distribuídos pela cidade. Atendem mais de 14 mil usuários por mês e desviam mais de 11 mil toneladas por ano do aterro.

  • P3
    Coleta exclusiva de vidro

    Programa específico, com baixíssima taxa de rejeitos (cerca de 2%). Modelo de referência para a separação na fonte.

  • P4
    Compostagem · Método UFSC

    Aplicado em escala domiciliar, comunitária e centralizada. Hoje são cinco iniciativas em operação: quatro pátios descentralizados e um centralizado.

  • P5
    Unidades de triagem · 7 em operação

    Galpões para separação fina dos recicláveis secos coletados. Empregam cerca de 200 famílias.

  • P6
    Coleta de verdes (podas)

    Programa específico para resíduos verdes domiciliares. Calendário publicado por bairro pela COMCAP.

D Percepções e experiências

As vozes que os dados sozinhos não revelam.

Quem vive o problema na ponta tem informação que nenhum relatório captura. Esta seção registra a estratégia de aproximação do grupo e abre espaço para o que ainda será ouvido.

Vozes já registradas · imprensa e fontes públicas

Fábio Braga Secretário do Meio Ambiente · PMF
Para atingir a meta temos de aumentar cinco vezes a coleta seletiva de secos e quinze vezes a de compostáveis.
Sarajane Rodrigues Presidente · ACMR
O cumprimento das metas pode significar aumento de até 50% na renda dos catadores. É emprego, é dignidade.
Ulisses Bianchini Superintendente de gestão de resíduos
O aterro é licenciado e um ponto de destino final ambientalmente adequado, porque tem centro de controle de chorume e gases.

Estratégia de aproximação do grupo

Ainda sem propor solução. Por enquanto, o grupo só ouve e observa, em três frentes diferentes de aproximação.

E 01

Conversas informais

Com vizinhos, porteiros, comerciantes do bairro. Como cada um lida com o lixo de casa? O que mais incomoda? Quais hábitos já existem que poucos sabem que existem?

E 02

Observação direta

Passar por ecopontos, lixeiras públicas e dia de coleta seletiva em diferentes bairros. Que separação chega de fato? Onde a mistura quebra o processo?

E 03

Entrevistas exploratórias

Conversas mais estruturadas com triadoras da ACMR, gestores da COMCAP/SMMA e moradores ativos em iniciativas comunitárias de compostagem.

E 04

Leitura de fontes

Matérias da imprensa local, relatórios do PMGIRS e teses recentes da UFSC sobre o tema. Cruzamento entre dado oficial e narrativa pública.

Quem queremos ouvir

Perfil 01 Catadora / triadora

Quem trabalha na ponta da reciclagem. ACMR e outras associações. Sabe exatamente o que chega misturado e por quê.

Perfil 02 Morador comum

Perfis diversos por bairro, idade e tipo de moradia (casa, apartamento, condomínio). A diversidade revela barreiras diferentes.

Perfil 03 Gestor público

Equipes da COMCAP e da SMMA. Que dificuldades operacionais enfrentam? Onde a política bate na realidade?

Perfil 04 Liderança comunitária

Coletivos, ONGs e moradores que já organizam compostagem comunitária, hortas e ações educativas no bairro.

Roteiro inicial de perguntas

Perguntas-guia · primeiras aproximações

  1. Como você separa (ou não) o lixo na sua casa hoje?
  2. O que mais te dificulta separar? E o que te ajudaria?
  3. Você conhece a coleta seletiva da COMCAP? Sabe o dia que passa no seu bairro?
  4. Já levou material a um ecoponto? O que lembra dessa experiência?
  5. Quem você acha que deveria ser responsável por melhorar isso?
  6. Que tipo de informação ou apoio faria diferença para você?
Em campo · próximos passos Esta seção será atualizada conforme o grupo for fazendo as primeiras conversas, observações e entrevistas. O que aparece aqui é ponto de partida, não de chegada. A escuta vem antes do recorte do problema, que é o assunto da Etapa 02.